Viver em um país latino-americano é ter simpatia por um time de futebol. Ter simpatia por um time de futebol significa exaltar-lhe os símbolos, os seus sistemas de significado, seu patrimônio em detrimento a um rival. Significa pertencer a um grupo que se reconhece através de seus próprios sistemas interpretativos, de cores e vocabulário próprio. É muito comum no Brasil este tipo de situação: “Viu lá o fulano? É um loiro baixinho, barrigudo e gremista que está sempre andando perto do ponto de ônibus...” Gremista aqui passa a servir como categoria que define este indivíduo.
O clube construiu através de sua história uma série de patrimônios materiais e imateriais. O escudo, a bandeira, as cores, a camiseta, o estádio, o hino, tudo isso opera dentro de uma lógica de sentidos na cabeça de cada torcedor. Ao vestir o uniforme e adentrar as bancadas do estádio, o torcedor deixa de ser o que era em sua vida particular e passa a ser membro da torcida. As únicas distinções que podem ser feitas dentro de um estádio são os setores os quais o torcedor freqüenta: seja cadeira numerada coberta ou na geral, em pé.
Entretanto a torcida de futebol é um excelente exemplo de comunidade imaginada, ou seja, algo que pensamos como parte de nossa natureza essencial, porém que não nos é natural, não está expressa em nossa genética. Ao me definir corinthiano, gremista ou flamenguista, eu adoto os ícones carregados de significados destas equipes, seu patrimônio material e imaterial como e vivo como torcedor dentro de uma sociedade imaginada.
A condição de homem exige que o indivíduo, embora exista e haja como ser autônomo, faça isso somente porque ele pode primeiramente identificar a si mesmo como algo mais amplo – como um membro de uma sociedade, grupo, classe, estado ou nação, de algum arranjo, ao qual ele pode até não dar um nome, mas que ele reconhece instintivamente como seu lar. (SCRUTON, 1986)
Ao escolher um time para o qual torcer, estamos definindo a nossa identidade. É interessante aqui estabelecer um paralelo entre as culturas nacionais como sociedades imaginadas citadas por Stuart Hall e as culturas do futebol, pois ambas atuam de forma muito similar. Assim como uma cultura nacional é um discurso – um modo de construir sentidos que influencia e organiza tanto nossas ações quanto a concepção que temos de nós mesmos (HALL, 2006), a cultura clubística produz um sentido sobre o que é pertencer ao clube e constrói sentidos com os quais podemos nos identificar.
Os mitos e estórias que são contados sobre as nações, suas memórias que remetem a um passado glorioso, o hino nacional, a bandeira, o brasão. Todos estes elementos estão presentes também no futebol. Pertencer a um grupo de torcedores e partilhar destes elementos constituintes de identidade dá sentido a existência monótona de um indivíduo descentrado e de múltiplas identidades nos dias de hoje. Em uma sociedade brasileira hiper-reflexiva, escolher um time de futebol para o qual torcer é uma escolha quase que obrigatória, como se não ter um time fosse como não ter nacionalidade, estar ausente do grande sistema de significações que faz do Brasil o país do futebol.
Como a escolha do clube do coração não é feita ao sabor das contingências, uma vez realizada não pode ser alterada facilmente, cabendo ao torcedor arcar com o ônus da sua opção. Trocar de clube, “virar a casaca”, é uma falta gravíssima, podendo gerar suspeitas sobre a hombridade do sujeito. Como diz o hino do Flamengo, e isto vale para os demais clubes, “uma vez Flamengo, sempre Flamengo... Flamengo até morrer”.(DAMO, 2001)
A escolha do clube do coração é realizada desde muito cedo, ocasião a partir da qual o indivíduo torna-se pessoa, passando a fazer parte de um mundo mais amplo que a casa e a família, o que lhe permite se definir e exercitar como parte de uma totalidade, vivida na rua, em pleno domínio público (DA MATTA, 1982)
Neste mundo mais amplo, o torcedor não será valorizado em suas demais identidades societárias, mas sim como mais um membro da torcida. Na arquibancada ele irá abraçar seus semelhantes na hora do gol, vai chorar nas derrotas, vai se emocionar juntamente com outros elementos que são desconhecidos dele na vida social, mas que dentro do estádio, uniformizados são seus semelhantes
Importante citar também que não cabe ao torcedor apenas defender os patrimônios pertencentes ao seu clube. Mais do que isso, ao torcedor cabe também a tarefa de atacar os patrimônios de seus rivais, buscando assim obter um protagonismo em detrimento dos outros grupos. Em alguns casos, este movimento de ataque e defesa de seu patrimônio deflagra uma situação de conflito aonde a violência muitas vezes é o resultado. Sendo assim, a atividade de torcer constitui-se basicamente em: defender o patrimônio do seu clube e atacar os patrimônios dos clubes rivais, a fim de evidenciar cada vez mais o nome do seu clube no cenário social futebolístico. Como resultado disso temos um aumento na auto-estima do grupo, bem como na auto estima dos indivíduos pertencentes a este grupo de torcedores.
Fúria.
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